A utopia

Anos atrás escrevi uma série de textos correlatos acerca de relacionamentos. Resolvi reuni-los em um único arquivo e dei à compilação o nome de “A utopia de não estar só”. Dei este nome ao trabalho devido a complexidade da vida a dois. Sobretudo, porque embora casados, uma grande quantidade de pessoas reclama, em um momento ou em outro, de sentirem-se solitárias.
Certa manhã percebi este fantasma de forma bem vívida. Fui a uma das igrejas que frequentei por um tempo para prestigiar a formatura de um curso que a mesma estava oferecendo. Revi amigos, relembrei momentos felizes, matei saudades. Foi um momento ímpar. Sobretudo, pelo momento agradável e bonito.
Apesar disso, também vi certo senhor que há muito tempo não via. Lá estava ele sentado três fileiras de bancos depois da minha, já com seus cabelos totalmente brancos e de canto uma bengala. Recordei do quão participativo e respeitado naquela comunidade ele tem sido ao longo de todos estes anos. Cresci vendo-o sempre muito atuante, participando de evangelismos, obras, e toda sorte de atividades, porém sempre sozinho. A última memória que tenho de sua esposa é dela dando aula na EBD, isso faz pelo menos quase duas décadas ou mais.
Revê-lo ali sentado anos depois me fez senti um misto de alegria e tristeza, encorajamento e medo. Senti alegria por reencontra-lo e de poder ver que apesar dos anos continua firme na fé; triste porque percebi na prática, pelo menos em um aspecto, o fantasma da utopia. Sim, senti-me encorajado por ver que é possível apesar de estar quase terminando a carreira assombrado pela utopia, termina-la “bem”. E temi, temi a ideia de eu mesmo um dia vivenciá-la.
Um trecho da compilação de textos supracitado, com a qual também termino este depoimento, contínua falando alto ao meu coração e fazendo-me estar de joelhos diante de Deus por causa da utopia:
” Homens e mulheres têm cada vez mais perdido a capacidade de sonhar, sobretudo de sonharem juntos. De sonhando com o outro sonhar o sonho do outro de tal maneira que construam um sonho comum. E, sonhando, estabelecer um projeto comum de vida na vida. E assim juntos cumprir os planos e projetos de Deus para ambos. Com frequência, cada vez mais entramos no casamento e continuamos sozinhos. Cada um à sua maneira cultiva e rega seus próprios sonhos, sua própria visão de mundo, e, programa sua própria ação no mundo, as expensas do outro. Juntos mais separados, pertos; porém distantes”.
Cuidemos de nós mesmos.
Por Edson Ciso